Por que isso não é só para grandes empresas
Nos últimos anos foi possível ver um amadurecimento do ambiente de negócios brasileiro quanto à exigência de boas práticas internas e externas de governança e compliance, mediante a criação de leis e movimentações vinculadas ao combate à corrupção, ao tratamento de riscos da atividade, gerenciamento de riscos ocupacionais, ao tratamento de dados, integridade de fornecedores para contratação com administração públicaà organização interna, entre outros fatores decisivos para a manutenção das relações comerciais. Portanto, empresas de todos os portes precisam demonstrar mais organização, transparência e capacidade de lidar com riscos, e a governança corporativa tornou-se uma ferramenta relevante para proteger o negócio e sustentar seu crescimento.
No entanto, muitos associam esta exigência de boas práticas a um mercado multinacional, envolvendo grandes companhias, que possuem conselhos de administração, auditorias independentes, relatórios extensos e estruturas sofisticadas de controle. Essa visão faz com que muitos empresários de pequenas e médias empresas entendam que a criação e a implementação destas práticas não fazem parte de sua realidade.
Isso, no entanto, não é verdade. A estruturação de uma governança corporativa não é um produto ou uma estrutura exclusiva a empresas de capital aberto ou empresas que atuam em grandes mercados. Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC, ela é um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelos quais as organizações são dirigidas e monitoradas, com o objetivo de gerar valor sustentável para a organização, seus sócios e a sociedade1.
Em pequenas e médias empresas, esse sistema pode ser estruturado de forma mais simples e condizente à realidade do negócio, mas continua sendo importante para apoiar seu desenvolvimento. O ponto não é reproduzir o modelo de uma multinacional, mas criar mecanismos que ajudem a empresa a funcionar melhor, crescer de forma mais organizada e depender menos da improvisação.
Por que a governança é importante para pequenas e médias empresas?
Pequenas e médias empresas costumam ter uma característica em comum: a proximidade entre as pessoas que exercem a gestão e a operação, muitas vezes concentradas em uma mesma pessoa, o fundador. Essa concentração facilita a tomada de decisões no dia a dia, mas também concentra conhecimento, deveres e responsabilidades em poucas pessoas, o que se torna um risco à medida que o negócio cresce.
Com o crescimento das empresas, esse modelo mais próximo e informal começa a apresentar limites: o fundador passa a ser consultado para todas as decisões relevantes da empresa; as decisões deixam de ser formalizadas por escrito, ficando apenas verbais na maioria das vezes; surge confusão entre o caixa da empresa e as despesas pessoais dos sócios; conflitos entre sócios, familiares e funcionários ficam mais difíceis de administrar; e os riscos só são percebidos depois que já causam prejuízo.
Para evitar ou ao menos minimizar esses riscos e limites, a governança é uma ferramenta de gestão importante. Estudos divulgados pelo próprio IBGC destacam que os modelos tradicionais, pensados para grandes corporações, nem sempre funcionam para negócios pequenos ou médios.
No entanto, a governança não é engessada, nem se trata de uma lista fixa e predefinida, aplicável a todas as empresas. Na realidade, trata-se de uma ferramenta flexível, adaptável e progressiva, que pode ser implementada e, ao passar do tempo, desenvolvida para se tornar mais robusta. Existem práticas que podem ser aplicadas sem a necessidade de um processo burocrático que dificulte o negócio em si, como conselhos consultivos, transparência nas informações e decisões relevantes, prestação de contas, separação entre família e empresa e implementação gradual2.
A governança é uma ferramenta que acompanha o porte da empresa, o setor no qual atua, a estrutura societária atual e futura e os riscos de cada negócio. Para que uma governança seja eficaz, todos esses pontos devem ser levados em consideração para sua estruturação e implementação.
O que a falta de governança pode custar à empresa
As consequências da ausência de uma governança estruturada nem sempre aparecem imediatamente. Normalmente, aparecem quando existe alguma crise gerada na empresa, por exemplo, na falta do fundador que concentrava todas as decisões importantes, em informações desencontradas e até mesmo conflitantes que podem dificultar relacionamentos com fornecedores, clientes ou bancos, no surgimento de conflitos entre sócios, ou na dificuldade do dia a dia para acompanhar resultados, entre outros sinais. Quando esses sinais se acumulam, a desorganização pode custar a continuidade do negócio.
Uma estrutura de governança adequada não elimina todos os problemas, mas ajuda a empresa a se preparar melhor para preveni-los, identificá-los e responder a eles. Entre os principais ganhos estão:
1. Poderes de decisão mais definidos e menos centralizados: Uma empresa pode até começar com decisões concentradas no fundador, no entanto à medida que cresce, se for mantida esta dinâmica pode gerar problemas para o negócio. Portanto, a definição de papéis e alçadas de responsabilidade e decisões ajuda a empresa a ganhar velocidade com responsabilidade, em vez de depender de consultas constantes ou de decisões contraditórias.
2. Redução de riscos: Governança não elimina riscos, mas aumenta a capacidade de acompanhá-los e tratá-los antes que se transformem em crises que podem afetar a imagem da empresa. Um mapa simples pode incluir riscos financeiros, tributários, trabalhistas, operacionais e relacionais (com fornecedores, com clientes, entre outros). O importante não é ter vários documentos para definição, mas sim procedimentos conhecidos e realmente utilizados pela equipe.
3. Transparência gera mais confiança perante terceiros: Informações organizadas e responsabilidades bem distribuídas tornam o negócio mais transparente, com dados compreensíveis para todos com quem se relaciona. Isso pode fortalecer conversas com bancos, investidores e potenciais clientes. A transparência, nesse contexto, não significa divulgar tudo, mas fornecer informações verdadeiras, claras, relevantes e no momento adequado às partes interessadas¹.
4. Separação entre família e empresa: Em negócios familiares, a governança tem uma função adicional, auxilia na separação de empresa e família, para aqueles que convivem na mesma organização. Uma pessoa pode ser, ao mesmo tempo, familiar, sócia e gestora,
mas cada papel envolve direitos, deveres e critérios diferentes. Na prática, isso pode envolver regras para admissão e demissão de familiares na empresa, remuneração, distribuição de lucros, resolução de conflitos e preparação para as próximas gerações assumirem o negócio.
5. Continuidade com as próximas gerações: Planejar a sucessão e a continuidade com as próximas gerações não significa a desvinculação total do fundador no negócio, mas a criação de mecanismos que reduzam a dependência da empresa em relação ao fundador, além de preparar a organização para diferentes cenários: aposentadoria, afastamento, mudança de sociedade, venda do negócio ou transição para a próxima geração.
Governança para crescer com segurança
Os principais impedimentos quanto à criação e implementação de governança nas pequenas e médias empresas costumam ser atribuídos aos custos altos para implementação, à criação de burocracia nas decisões e à eventual perda de autonomia do fundador.
Mas na verdade, uma governança bem estruturada tende a proteger a autonomia do fundador, porque melhora o volume e a qualidade das informações e reduz a dependência de decisões abruptas e instintivas. Ela ainda significa criar definições e papéis claros para que as pessoas certas decidam, acompanhem os resultados e corrijam eventuais desvios de trajetória do negócio, permitindo que conhecimentos pessoais sobre o negócio e sobre o andamento sejam transformados em processos que possam ser compartilhados, aperfeiçoados e transmitidos.
Uma governança não precisa começar quando a empresa se torna grande. Ela ajuda a empresa a se tornar mais preparada para crescer e se tornar grande de forma mais organizada, para enfrentar riscos, atrair parceiros e atravessar gerações.
Cada empresa encontra-se em um estágio de maturidade diferente, mas todas podem iniciar o desenvolvimento de uma governança eficaz. Para isso, o primeiro passo é entender exatamente onde estão os riscos e as oportunidades de melhoria no seu negócio.
Nossa equipe apoia pequenas e médias empresas e está à disposição para acompanhar sua empresa nesse diagnóstico e na construção de um modelo de governança sob medida, alinhado à realidade de cada cliente.
_____________________________________________________________________





